“- Você viaja para reviver seu passado? – era, a esta altura, a pergunta do Khan, que também podia ser reformulada da seguinte maneira: - Você viaja para reencontrar o seu futuro?
E a resposta de Marco:
- Os outros lugares são espelhos em negativo. O viajante reconhece o pouco que é seu descobrindo o muito que não teve e o que não terá”.
(Ítalo Calvino, As Cidades Invisíveis)
Uma câmera fixa capta a confluência de malabaristas num sinal de trânsito. A cada fechar de semáforo, uma nova dupla emerge para um balé sincronizado de malabares de fogo. Ao se formar um paredão de, o sinal abre e o fluxo de carros não é permitido. O enfrentamento dá-se entre os movimentos ritmados e as buzinas enfurecidas. Fade out. Só restam os ruídos deste embate. Não sabemos quem ganha a batalha.
O vídeo Confronto, de Cinthia Marcelle, é rota com várias vias de acesso. Fiquemos com duas trilhas: uma nos leva a contextualizá-lo na série Unus Mundus, uma congregação de eventos sincrônicos que a artista vem propondo desde 2004. Um outro caminho possível aponta para o projeto chamado “Temos Direito ao Vetor. O que tangecia apenas vem. Eu vou dizer de novo. Temos Direito ao Vetor. O que tangecia apenas vem”, individual de Cinthia ocorrida em Belo Horizonte e no Recife, que relaciona Confronto com objetos repletos de potência narrativa.
Peguemos então a primeira estrada. Unus Mundus é um conceito amplo que foi utilizado por alquimistas, taoístas chineses e de maneira estendida pelo psicanalista Carl Jung. Obviamente, cada utilização do termo tem suas próprias conotações, mas em geral significa assinalar um estado de multiplicidade unificada, um único mundo que contém tudo, além do tempo e do espaço. Uma cosmovisão que enxerga dicotomias como amor e ódio, espírito e matéria, bem e mal, paz e guerra etc com harmonia e união. A experiência unus mundus acontece quando o tempo é condensado numa unidade objetiva atemporal, como ocorre em vivências do sagrado e nos sonhos. O taoísmo acredita que aquele que se unifica com o unus mundus tem a capacidade de andar sobre as nuvens, sobre os mares, sobre o fogo. A psicanálise Junguiana, por sua vez, interpretará esta noção como sincronicidade e conseqüentemente uma conexão tal entre os indivíduos que leva o nome de inconsciente coletivo. Os eventos externos ressoam e parecem fazer parte de nossa psique, como se tudo estivesse contido na mesma totalidade.
O que interessa em particular a Cinthia Marcelle é a constatação da conectividade entre sujeito e mundo, indivíduo e coletividade, da mesma forma que fica em evidência a impossibilidade de prever ou mesmo de mensurar os acontecimentos simultâneos que se repetem a cada instante no mundo. As proposições Unus Mundus da artista compreendem além do Confronto: História (Quarenta e quatro objetos alheios são consertados e agrupados em um mesmo espaço), Geografia (Duzentos e cinqüenta e seis braços de mangueira partem de uma torneira em direção a uma mesma lagoa), Volta ao mundo (nove kombis brancas contornam simultaneamente uma mesma praça), Audição (nove pessoas compõem uma orquestra com diferentes instrumentos e músicas variadas) e Refrão (sete casais se entregam ao mesmo tempo a um longo beijo). Provocar coincidências gera no espectador uma espécie de suspensão reflexiva, um estado de consciência das camadas cognitivas que cada indivíduo carrega. Incita-se um sentimento de que não se está só, que apesar da efusiva fragmentação das coisas, compartimentação da vida, há algo que une, que causa compartilhamento. Uma visão comunicativa da heterogeneidade. A sincronicidade dos malabaristas amarra temporalidades e espacialidades elastecidas.
Trilhemos o segundo itinerário. O diálogo entre o Conversador e AS. presta-se como bússola de uma jornada: “Você sabe que existem duas viagens: uma vez você quer se deslocar de onde você está, outra vez é quando o lugar que você está não existe mais. É como uma estrada sendo engolida pela floresta, a entropia está sempre vindo atrás”. Os vestígios do caminhante/retirante estão espalhados pela galeria. Um chapéu de feltro encoberto com carrapichos. Um par de meias impregnado de terra encontra-se estendido na parede. Uma cerca miragem posiciona-se de tal maneira que apenas sugere obstáculo. Traços de uma pista apontam direção. Um cachecol amarelo trançado numa árvore remete ao que fica no lugar pelo o qual se passou. Uma fotografia impregnada de cor terra apresenta um cavalo sem cabeça. Seria nova miragem? Seria um princípio de sonho? O percurso descamba em confronto. Figuras lúdicas disputam espaço com a encarnação da urbanidade. Seria o fim da estrada? Seria o início de outro percurso? “Onde estive havia uma beleza suspensa que terei que realizar. Ou então ela me sufoca”, pontua AS. Todas as rotas levam ao impasse e ao diálogo.
TEJO, Cristiana. E no fim do caminho tinha… em: Obras Comentadas da Coleção do Museu de Arte Moderna de São Paulo, Museu de Arte Moderna São Paulo/SP, Brasil, págs. 45 a 47, 2007.
A operação realizada por Cinthia Marcelle tem como premissa a estrutura do prédio do Centro Cultural São Paulo e a força de sua arquitetura. Trata-se de uma simples recombinação de dezenas de lâmpadas frias que cobrem linearmente o teto do edifício. A artista emenda fios azuis e vermelhos que formam uma espécie de gambiarra e, como em dinamites gigantes, agrupa bastões de luz em feixes. O explosivo luminoso, em vez de sugerir uma ameaça em potencial, se aproxima da pulsação e da atividade da própria instituição. Não se trata, entretanto, de uma crítica institucional, tampouco de uma simulação de um atentado terrorista. As dinamites que vemos difundindo claridade estão sendo detonadas. Como estamos no campo da arte, o que emana dessas esculturas pode carregar os sentidos figurados da luz.
No centro de cada explosivo há um relógio sem divisões em que um ponteiro em movimento contínuo e circular gira sobre um fundo sem demarcações. É como se o instante da explosão fosse alargado ao máximo até se tornar eterno. Não é possível mensurá-lo ou determinar seu início e fim, do mesmo modo, não há finalidade para o tempo que transcorre senão o seu próprio movimento.
Talvez a explosão que esteja em ação tenha relação com a explosão cósmica, com o big bang que deu origem à criação do universo e cujo movimento ainda não cessou. A série Unus Mundus – e o título é sugestivo – poderia corroborar tal hipótese. De um modo amplo, a série investiga a dimensão do mundo e as relações entre acontecimentos únicos e ocorrências múltiplas. Interessam à artista coincidências e simultaneidades.
Unus Mundus - Volta ao Mundo, apresentado na mostra coletiva, é um vídeo de uma ação aparentemente incomum: nove Kombis giram alguns minutos em torno de uma praça. Além de o registro de um acontecimento, trata-se de uma situação genérica: quantas Kombis nesse exato instante contornam praças pelo mundo? Quantas já deram ou ainda darão voltas em qualquer rotatória em alguma cidade? É a essa relação incógnita entre o singular e o universal que o trabalho de Cinthia Marcelle remete.
Para a mostra individual, a artista apresenta um novo trabalho em vídeo: Unus Mundus - Confronto. Enquanto o mundo continua a girar, um pequeno ruído é causado entre malabaristas sobre uma faixa de pedestre e carros afoitos em cruzar o farol. O poder do fogo e a habilidade dos acrobatas, que aos poucos tomam as ruas e criam uma situação inusitada, desafiam a buzina estridente dos motoristas.
Um evento ímpar como esse, ao mesmo tempo em que nos permite acionar situações idênticas e paralelas, exige uma reconfiguração de seu entorno e uma nova equação de forças. Essa experiência versa sobre um exemplo não exemplar que concentra acontecimentos semelhantes e díspares, que se repetem todos os dias em nossa vida, que podem ser generalizados, mas que jamais constituem um modelo.
ALVES, Cauê. Entre o Singular e o Universal em: volante da V Mostra do Programa de Exposições, Centro Cultural São Paulo, São Paulo/SP, Brasil, Jul. 2005.
As fotografias, esculturas, performances, vídeos e instalações de Cinthia Marcelle partem de ações que a artista realiza e que muitas vezes não são visíveis em um primeiro olhar sobre os trabalhos. Embora se manifestem formalmente de maneiras bastante distintas, essas obras guardam relação com um estar-no-mundo que antecede a realização física da obra – uma espécie de economia vital da artista, que observa, analisa e interfere nas relações entre as pessoas e as coisas. A artista nomeou Unus Mundus uma série de trabalhos recentes seus, que, no Museu de Arte da Pampulha, aparecem em três diferentes obras – o título se refere a ações que lidam com a coincidência e a simultaneidade.
Unus Mundus – História (todas as obras 2004) tenciona o sentido social da arte por meio da participação e dialoga com preceitos da arte conceitual. Cinthia pediu que algumas pessoas indicassem objetos que pertencessem a elas e que não funcionassem mais. Esses objetos foram emprestados à artista e devolvidos à sua função por meio do agenciamento de técnicos especializados para fazerem os reparos solicitados pelas pessoas: cadeiras que ganharam novos assentos; rádios e aparelhos de som que voltaram a funcionar; um sapato recondicionado; uma foto antiga e um dicionário restaurados – e assim por diante. O grupo de pessoas não incluía necessariamente apenas amigos ou parentes, mas também pessoas que eram procuradas pela artista para repararem os objetos de terceiros e que acabavam indicando seus próprios objetos para reparo, no que poderia se transformar numa espécie de corrente.
O afeto das pessoas pelas coisas e o desejo de reconquista é o ponto central do trabalho. Os 44 objetos reparados aparecem em uma mesma instalação no Mezanino do Museu, correspondendo não à escolha do artista, mas ao desejo dos colaboradores envolvidos: não se trata de criar um ambiente com estes objetos, mas de evidenciar sua unicidade. A idéia do restauro, tão cara ao mundo da arte, aparece emprestada a objetos do cotidiano, mas investidos de nova aura pela artista, como se a arte se abrisse para um uso cotidiano. Pelo caráter de resgate do projeto, não deixa de ser revelador que a maioria dos colaboradores tenha optado por emprestar objetos antigos ou nostálgicos, adicionando suas próprias memórias pessoais e aquelas dos objetos à instalação; porém a idéia de nostalgia não deixa também de ser parcialmente contradita pela volta à utilidade. Numa mesa (obviamente também renovada), estão dispostos os cartões de visitas com os contatos de todos os técnicos envolvidos – especialistas em limpeza, marceneiros, eletricistas, restauradores de papel e de brinquedos etc. –, mostrando que o papel da artista, nesta obra, é aproximar as pessoas dos seus desejos e necessidades, muitas vezes equivalendo-os. Afinal, vale lembrar que, encerrada a exposição, os objetos serão devolvidos aos donos, de certa forma fechando o circuito aberto pela artista.
Unus Mundus – Geografia também contém a idéia de multiplicação e progressão, porém manifestada de maneira mais formal e matemática. Trata-se de uma escultura nos Jardins, feita com mangueiras. Uma primeira mangueira é conectada a uma torneira, criando divisões subseqüentes de quatro em quatro metros até formar 128 braços que desembocam na Lagoa da Pampulha, criando uma espécie de delta. Ao rigor matemático dessa estrutura se sobrepõe a ironia da idéia de que o lago poderia ser formado por apenas uma torneira (na verdade, as mangueiras são opacas e não deixam ter certeza se transportam ou não água). O rigor matemático e regular da estrutura é negado pela moleza do material e o caráter acidentado. Mais próximo de um pensamento escultórico, Unus Mundus – Volta ao Mundo contrapõe imagens de uma ação insólita ao peso real dos objetos. Trata-se do registro em vídeo de uma ação na qual nove kombis circulam uma praça por cerca de dez minutos, ficando todas visíveis enquanto realizam repetitivamente o movimento. Os veículos entram um a um no circuito, girando hipnótica e simultaneamente, para depois saírem também gradativamente. A praça, vazia e silenciosa depois da passagem dos carros, exibe uma estranha quietude, como se estivesse ainda excitada e contraída pelo movimento e o volume que ainda há pouco recebia.
MOURA, Rodrigo. Bolsa Pampulha em: Livro Bolsa Pampulha 2003 - 2004, pág. 65 a 67, Belo Horizonte/MG, Brasil. Dez. 2004;