A princípio, parece somente fotografia de armas de fogo. Mas o que interessa ao artista não é arma, mas a rasura, de diferentes tipos, que pode ser vista em cada uma delas. Assim, criminosos procuram esconder a numeração de suas armas. O registro oficial é driblado. A tentativa é a de camuflar crime e criminoso. Se a arma não é a protagonista, a fotografia também tem a sua força esmaecida com a presença de pequenos textos sobre a imagem, nos quais é possível ler os dados que a policia colheu após o crime cometido com cada arma à nossa frente.
As iniciais de réu e vítima, e a indicação do dano causado, nos tiram do entorpecimento que uma certa “beleza” contida nas fotos pode gerar, fazendo-nos imaginar a sua “história”. Assef, a um só tempo, oferece o brilho que salta do aço de cada pistola e o dilui em favor da lembrança de uma narrativa crepuscular que recobre cada uma dessas imagens.
A arte continuamente volta sua força criativa e convida o público para ver, ler, criticar, documentar, seduzir, inventar, agredir e elogiar o corpo humano. Rafael Assef atua neste circuito. O artista cria imagens de um corpo possivelmente atual, contemporâneo. Sua exploração adota procedimento moderno. Fragmentação, justaposição, composição estão sempre concorrendo para a imagem final que se apresenta.
Não é à toa que os possíveis nus de Assef se chamam, por oposição, "Roupas". O artista trabalha com a tensão entre o que é natural e não-natural, mas parece assumir, de antemão, que fala a partir da arte, da cultura, da moda, da história.
A manipulação é explícita. Manipulação da fotografia -pela cor, pela escala, pela ampliação e pelos recortes-, e manipulação dos "modelos", pelas poses, pela cor aplicada e, mais uma vez, pelos cortes.
Na série "Roupas", o enquadramento permite ver contornos dos braços, pernas, tronco, dorso. Cabeças e sexo não entram no jogo. O artista trabalha a cor desbotando a tonalidade da pele. Azuladas e bem apoiadas, as imagens evocam poses clássicas ou renascentistas. É possível entrever até o David de Michelângelo, num dos dipticos.
O artista prossegue. Usa como suporte um corpo de onde já retirou a cor, recortou extremidades, excluiu genitais e faz ainda uma outra intervenção, sulcando na pele os recortes dos "moldes" de costura. A cava das mangas, o vinco das pernas das calças. A roupa, infiltrada como uma segunda natureza, não provoca choque. Não há drama.
O sangue deste corpo não sangra, não pinga. É um corpo que aceita a manipulação sem oferecer resistência.
Abrem-se pequenas fendas entre o que é interno e o que é externo, a sempre presente obsessão moderna. Mas, entre os dois universos, o tempo parece congelado. Não há comunicação ou contágio. Este corpo -moderno? idealizado? escravo? desnaturado?- não sangra.
“Que tipo de porcelana define uma pessoa?”- pergunta Tyler Durden, personagem de Brad Pitt / Edward Norton no filme Clube da Luta na cena em que o personagem que havia transformado a gordura roubada de uma clínica de lipoaspiração em sabonetes refinados e os vende em lojas de departamento de alta classe. O artefato produzido supera as dimensões dos formatos conhecidos ao remanifestar-se no contexto de sua matéria prima.
Seria possível investigar práticas estéticas que se apresentam como evidência no sentido criminal?
Os trabalhos de Rafael Assef podem nos colocar na posição de investigador. As atmosferas curiosas engajam o espectador em um processo de reconstrução mental a partir de suas representações. Como em um caso policial, a ação investigativa sobre as probabilidades nos aproximam das imagens, seja por estranhamento ou por sedução, e nos leva a compor e decompor `evidências possíveis’. A aproximação está no movimento investigatório que remete ao imaginário de um laboratório criminal e seus equipamentos. Procurando pistas em circuitos por vezes fechados e por outras extrapolados dentro de um mapa; lances de dados; detalhes de faca e corpo.
A arte nasce na intimidade?
Num primeiro olhar, o trabalho de Rafael Assef apresentam catalogações íntimas de grupos específicos ou de realidades especificas as quais ele pertence e retrata. É um Retrato (com letra maiúscula por se tratar do sentido clássico do termo) de seu contexto social. Porém o conteúdo das imagens não se limita aos retratados, mas permite diversas leituras ao espectador. As variações dependem da subjetividade, assim como as palavras (códigos reconhecíveis por excelência) que nos parênteses de Roland Barthes se desdobram. Frequentemente as leituras traçam e refletem a historia de ações e motivações particulares.
A evidência está para à investigação como aquilo que indica, com probabilidade, a existencia de (algo); descrição viva e minuciosa de um objeto, realizado com a enumerção de suas particulariedades sensíveis, reais e fantasiosas pela ação do investigador.
Em contraste à realidade criminal, não estou sugerindo que ao engajar no movimento de especulação e interpretação, o investigador busque nessas evidencias possiveis uma definição ou conclusao. Investigar é seguir links entre respostas emocionais e esteticas e as ideias que surgem sobre evidencias. As fotografias de Assef nos permite pensar estas evidencias em perspectivas, não mais como idealização ou forma, mas torna-se produção ativa daqueles que a investigam.